is de um grande
senhor, mas ela não o conhecia. - Não tive a honra, senhor.
Septã Mordane foi rápida em vir em seu auxílio.
- Querida menina, este é o Senhor Petyr Baelish, do pequeno
conselho do rei.
- Sua mãe foi em tempos passados a minha rainha da beleza -
disse o homem calmamente. Seu hálito cheirava a menta. -
Tem os cabelos dela - Sansa sentiu os dedos dele no rosto
quando lhe afagou uma madeixa arruivada. De forma
bastante abrupta, virou-se e afastou-se.
A essa altura, a lua já ia bastante alta e a multidão estava
cansada, e o rei acabava de decretar que os últimos três
encontros seriam disputados na manhã seguinte, antes do
corpo a corpo. Enquanto os plebeus se dirigiam para suas
casas, conversando sobre as justas do dia e os embates da
manhã seguinte, a corte deslocou-se até a beira-rio a fim de
dar início ao festim. Seis monumentais auroques estavam
assando havia horas, girando lentamente em espetos de
madeira, enquanto os ajudantes de cozinha os untavam com
manteiga e ervas até a carne começar a crepitar. Mesas e
bancos tinham sido montados fora dos pavilhões, e neles
tinham sido colocadas grandes pilhas de ervamel, morangos e
pão fresco.
Sansa e Septã Mordane receberam lugares de grande honra, à
esquerda do estrado elevado onde o próprio rei se sentava
com sua rainha. Quando Príncipe Joffrey se sentou à sua
direita, Sansa sentiu sua garganta apertar. Ele não lhe
dirigira uma palavra desde que acontecera aquela terrível
coisa, e ela não se atrevia a falar com ele. A princípio pensou
que o odiava pelo que fizera a Lady, mas depois de chorar até
ficar sem lágrimas dissera a si mesma que não tinha sido obra
de Joffrey, não verdadeiramente. Fora a rainha quem fizera
aquilo; era ela que devia odiar, ela e Arya. Nada de mal teria
acontecido se não fosse Arya.
Naquela noite não podia odiar Joffrey. Era demasiado bonito
para ser odiado. Vestia um gibão de um profundo tom de azul
ornamentado com uma fileira dupla de cabeças de leão, e
trazia em volta da testa uma estreita coroa feita de ouro e
safiras. Os cabelos eram tão brilhantes como metal. Sansa
olhou para ele e estremeceu, com medo de que a ignorasse ou,
pior ainda, voltasse a ficar detestável e a fizesse fugir da mesa
chorando.
Mas, em vez disso, Joffrey sorriu e beijou-lhe a mão, belo e
galante como qualquer príncipe das canções, e disse:
- Sor Loras tem bom olho para a beleza, querida senhora,
- Ele foi muito gentil - ela objetou, tentando permanecer
modesta e calma, embora seu coração cantasse. - Sor Loras é
um verdadeiro cavaleiro. Julga que ele ganha amanhã,
senhor?
- Não - disse Joffrey. - Meu cão dará conta dele, ou talvez
meu tio Jaime. E dentro de alguns anos, quando tiver idade
para entrar no torneio, darei conta de todos eles - ergueu a
mão para chamar um criado que trazia um jarro de vinho de
verão gelado e serviu-se de uma taça. Ela olhou ansiosa para
Septã Mordane, até que Joffrey se inclinou e encheu também
a taça da septã, que lhe fez um aceno de cabeça, agradeceu-
lhe amavelmente, mas não disse uma palavra.
Os criados mantiveram as taças cheias toda a noite, mas,
mais tarde, Sansa não conseguiu se lembrar sequer de ter
provado o vinho. Não precisava de vinho. Estava ébria da
magia da noite, entontecida pelos seus encantos, arrebatada
por belezas com que sonhara toda a vida e nunca se atrevera
a ter esperança de conhecer. Cantores sentavam-se perante o
pavilhão do rei, enchendo o crepúsculo de música. Um
malabarista manteve uma cascata de clavas em chamas
rodopiando no ar. O bobo privado do rei, o simplório de rosto
em forma de torta, chamado Rapaz Lua, dançou por ali
equilibrado em pernas de pau, vestido de cores variadas,
fazendo troça de toda a gente com tão hábil crueldade que
Sansa perguntou a si mesma se o homem seria mesmo lento.
Até Septã Mordane foi impotente contra ele; quando cantou
sua cançoneta acerca do Grande Septão, ela riu tanto que
derramou vinho no vestido.
E Joffrey era a alma da cortesia. Falou toda a noite com
Sansa, derramando elogios, fazendo-a rir, partilhando com ela
bocadinhos dos mexericos da corte, explicando as
brincadeiras do Rapaz Lua. Sansa ficou tão cativada que
esqueceu toda a educação e ignorou Septã Mordane, sentada à
sua esquerda.
E durante todo o tempo os pratos iam e vinham. Uma espessa
sopa de cevada e veado. Saladas de ervamel, espinafre e
ameixas, salpicadas de nozes esmagadas. Caracóis em alho e
mel. Sansa nunca antes tinha comido caracóis; Joffrey
mostrou-lhe como tirar o animal da casca e levou à boca a
primeira daquelas delicadas porções. Depois vieram trutas
recém-pescadas do rio, cozidas em barro; seu príncipe a
ajudou a partir a dura capa escamosa para expor a carne
branca que se encontrava no interior. E, quando foi trazido o
prato de carne, foi ele que a serviu, cortando uma porção
digna de uma rainha e sorrindo ao depositá-la em seu prato.
Ela podia ver, pelo modo como se movia, que o braço direito
ainda o incomodava, mas ele não soltou uma palavra de
queixume.
Mais tarde chegara